Contos

Uma grande amizade

Estava prestes a entrar na casa do Ricardo. O calafrio bateu, com a força do vento gélido, de um dia de chuva, que dava do décimo primeiro andar, de um prédio no nascente. Fiquei minutos paralisado, sem saber como proceder, o que dizer, para o meu tão grande amigo. Nós nos conhecemos no colégio, quando tínhamos cinco para seis anos. Estudávamos na mesma sala, fomos alfabetizados e seguimos para o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino fundamental, à época. O colégio era grande, tínhamos outros amigos, mas nos identificávamos, éramos quietos e sabidos, os primeiros da sala. Mas não competíamos, coisa nenhuma, éramos amigos que se ajudavam em algum perrengue. Geralmente, quando ia à sua casa, ia para estudar, e acabávamos brincando. E nossas brincadeiras eram banais, coisas de criança mesmo, não éramos arteiros. Ele era de família abastada, enquanto eu vinha da classe “média-média”, pode-se dizer. Ainda assim, morávamos no mesmo bairro — sendo que ele vivia em uma casa grande, no centro do bairro, cercada com grandes muros e vigiada pelo porteiro e faz-tudo. Alberto, um senhor muito gentil e amigo das crianças. Ele tinha dois cachorros, o primeiro e único Pointer Inglês que vi na vida, e um Weimaraner, lindos, lindos. Segundo seu pai, eram cachorros de exposição, hiper bem-tratados, com ração da melhor qualidade. Naquele período, tudo era caríssimo, mas Ricardo e sua família podiam bancar o luxo. Brincávamos de bola com os cachorros. Escolhemos o mesmo time de futebol, pois seu pai, muito amável, paulista, era torcedor fanático do São Paulo Futebol Clube, e nos incutiu a paixão pelo Zetti, por Müller e Raí, além do grande Telê Santana. Era, de fato, um time de ouro. Eu jogava invariavelmente no gol. Pedi ao meu pai para comprar as luvas do Zetti e a camisa de goleiro, para estar a rigor. Jogávamos vídeo game também — não preciso dizer que ele era o único a ter o Mega Drive. E o principal, de que não me esqueço, pilotava, na sua casa, o seu pequeno carro a motor. Era uma ostentação. Eu me sentia no filme Riquinho, uma mera empolgação pueril. E tudo era repartido, inclusive a comida boa da Sra. Socorro. Sua casa era o céu, me sentia super à vontade. Inventei de criar um álbum com figurinhas e vender. Ele topou o meu empreendimento e comprava as figurinhas horrorosas que eu desenhava — nunca fui bom em desenho —, para se ver o nível da amizade. Hoje, Ricardo tem uma linda família. Encontrei-o no shopping outro dia. Batemos um papo rápido e ele me chamou para conhecer a sua casa. Estou frio, ainda, aqui na porta. Não tive, por ora, coragem de apertar a campainha. Há o medo de que tudo tenha mudado. Claro que tudo mudou, penso, amuado. Devo insistir no reencontro? Sim, darei o primeiro passo, para nossa amizade continuar. Não o deixarei escapar.

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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